Antonio Cabral1
Coordenador dos Cursos de Pós-Graduação em Engenharia de Embalagem
Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia
antonio.cabral@maua.br

Ao ler os jornais da semana que se encerrou na Páscoa, dois fatos me saltaram aos olhos: a entrevista do presidente da Mondelez2 narrando os planos da empresa que quer crescer (o que é corretíssimo) via aquisições, entre outras estratégias; e a notícia de que a Natura3 vendeu a Aesop, num importante passo para a sua reestruturação. Essas notícias, mais o que vi e ouvi na Plástico Brasil, repleta de expositores que procuram crescer no turbulento mercado brasileiro, levaram-me a desenhar vários cenários.
Essas minhas divagações sobre o evento e o que li me fizeram retornar quase duas décadas atrás, quando acompanhei o meu saudoso amigo Roberto Hiraishi na viagem à Feira K 2004, em Düsseldorf. Ficamos hospedados em Wuppertal, cidade que fica a cerca de 30 km do local da exposição. Encantei-me com o Schwebebahn (transporte em trilhos suspensos sobre as ruas e sobre o rio, como mostrado na Figura 1), e pensamos muito se não seria uma boa solução para transporte sobre as marginais de São Paulo, com pontos de embarque e desembarque nas pontes que cruzam o Rio Tietê.
No final de um cansativo dia, fomos tomar uma excelente cerveja artesanal numa cervejaria/bar em Wuppertal. O dono de forma amistosa, conversou bastante conosco e nos deixou à vontade para perguntarmos se ele tinha projetos de crescer.
Nossa surpresa foi ouvir, com ar de extrema felicidade, num inglês básico: “Não! Estou bem assim!”. Perguntei como ele lidava com o fato de ter que deixar, no futuro, o empreendimento para os dois filhos. Mais uma surpresa: “Não penso nisso! Se eles quiserem continuar o negócio, que continuem. Não penso em aumentar. Estou bem assim!”, repetiu.
Entreolhamo-nos, como que externando a nossa “pouca compreensão” a respeito de tal “falta de ambição”, e calamo-nos.
Falamos sobre isso mais uma vez durante a viagem e, novamente, deixamos claro que não havíamos entendido aquela “alma de Wuppertal”. Como não pensar em crescer?
As notícias e a lembrança dos episódios que narrei formaram uma espécie de dicotomia que fixou residência temporária na minha mente, numa pergunta provocativa: o que é melhor para a indústria brasileira de embalagem : crescer exponencialmente, como muitas querem fazer e fazem, ou adotar uma atitude mais calma, com o pensamento voltado para a sua “longevidade”?
Acredito que muitas indústrias fabricantes e usuárias de embalagem estejam enfrentando questões semelhantes. Como me manter competitivo? Ao que respondo: qual é a competição em que você participa? Qual a melhor estratégia a adotar NESSA competição escolhida? Admiro aquelas que miram o crescimento agressivo, mas não posso deixar de dizer que me agradam muito as que são adeptas do crescer mais lento, também consistente e sustentável (para lembrar o leitor, a sustentabilidade “se sustenta” sobre três pilares: ambiental, social e financeiro).
Não sei qual das duas alternativas é a mais compatível com as dificuldades econômicas e sociais atuais do País e com as exigências dos acionistas. No entanto, a questão (mais uma!!!) que me salta aos olhos é: em qual competição a empresa está? Ou melhor, pretende se agigantar constantemente e ditar as rédeas do setor em que atua, ou se adaptar de forma mais lenta e discreta, talvez com menos sobressaltos, às exigências dos consumidores e clientes?
Volto a Wuppertal, em pensamento, com o querido Roberto Hiraishi, e à pergunta que nos formulamos à época: crescer ou não crescer num mercado extremamente competitivo? Talvez o cervejeiro alemão estivesse certo! Não sei se o seu empreendimento sobreviveu a muitos invernos. Acredito que ele realmente sabia a sua resposta, porque sabia em qual competição estava!!!
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Publicado na revista embanews, edição de agosto de 2023
- Diretor da Pack&Strat – Engenharia e Estratégia de Embalagem, Ltda – www.packstrat.com.br ↩︎
- O Estado de São Paulo —Ediçâo de 08 de abril de 2023 – Caderno Economia — Pág. B6 — Estamos falando com empresas. e queremos comprar. ↩︎
- O Estado de São Paulo —Edição de 04 de abril de 2023 – Caderno Economia — Pãg. B12 — Natura vende Aesop para L’Oreal por US$ 2.5 bilhões ↩︎