Antonio Cabral1
Coordenador dos Cursos de Pós-Graduação em Engenharia de Embalagem
Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia
antonio.cabral@maua.br
Tudo muda, tudo passa
neste mundo de ilusão,
vai para o céu a fumaça<
fica Na terra o carvão2 !
Nos primeiros anos de escola, aprendi e memorizei o poema Coração, escrito por Guilherme de Almeida. Considero eterna e sempre atual a estrofe reproduzida acima. Afinal, “tudo muda, tudo passa” cada vez mais rápido, e o progresso tecnológico, às vezes, permite imaginar uma espécie de instantaneidade das descobertas que são noticiadas e, tal qual fumaça, somem — “vão para o céu”.
Num recente evento familiar, enquanto um dos filhos se esmerava em acender o fogo na churrasqueira, mais uma vez o poema veio à mente — dessa vez com uma intrigante pergunta, quase uma provocação: como foi possível mantê-lo por tanto tempo na minha memória, numa espécie de amálgama de texto e emoção?
Foi inevitável relembrar os conceitos de Nonaka e Takeuchi3, visitados em textos publicados nas edições da embanews de agosto, setembro e outubro de 2014, sobre a criação e a gestão de dois tipos de conhecimento: o explícito — materializado como normas, procedimentos, especificações e indicadores — e o tácito, pessoal, de difícil formalização e transferência, alicerçado em modelos mentais, crenças e perspectivas que influenciam a maneira como o mundo é visto e, talvez, compreendido. A mescla dos dois é essencial na construção da competência da empresa focada na produção competitiva dos seus bens e/ou serviços.
Mais tarde, ao reler com calma o poema, percebi que tinha esquecido alguns poucos versos, mas não a emoção. O texto explícito estava lá, escrito, pronto para ser lido. O sentimento que despertou — tácito — precisou de um pouco de tempo até voltar à mente.
Ao transpor essa digressão para o Sistema Embalagem (sempre ele!), é possível perceber ser necessário registrar tudo o que foi relevante na construção dos seus sucessos — sempre lembrados — e insucessos, quase sempre esquecidos ou “arrancados da memória”. Quando o tempo passar, ficarão esses registros na forma de carvão queimado que, ao contrário do que acontece nas festas, não deve ser descartado, porque constituem o conhecimento explícito da empresa. Afinal, “os povos que não conhecem a sua história estão condenados a repeti-la4”.
Por sua vez, a “fumaça que vai para o céu” é o tácito, fixado nas mentes dos profissionais da empresa, e dificilmente registrado, ensinado ou aprendido por todos. Fica, muitas vezes, guardado no cofre da memória dos indivíduos e se torna obsoleto, ou é levado pela brisa do desprezo que se tem pelas perguntas questionadoras formuladas ou não respondidas, pelo vento dos cortes de pessoal que “otimizam custos”, ou ainda pelo tornado das crises econômicas. Em outras palavras, não gera valor!
Os “Ambientes BA”, que também são tema do livro publicado pelos autores japoneses citados no início deste texto, constituem a forma ideal de compartilhar problemas, aprendizados e experiências. Não é perda de tempo dedicar minutos da jornada diária de trabalho com o objetivo de analisar o desempenho do dia anterior, compartilhar as dúvidas e as certezas, e questionar de forma construtiva, uma a uma, todas as ditas verdades absolutas que grassam no cotidiano empresarial.
Eles (os Ambientes BA) existem com o objetivo de gerar, compartilhar e preservar o conhecimento tácito antes que ele, acompanhado da competitividade, feito fumaça, “vá para o céu” — sem deixar que “fique na terra o carvão”, que é o testemunho da tentativa de explicitá-lo.
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Publicado na embanews, edição de fevereiro de 2022
- Diretor da Pack&Strat – Engenharia e Estratégia de Embalagem, Ltda. – www.packstrat.com.br ↩︎
- Estrofe do poema de Guilherme de Almeida. Disponível em hrrps://bit.ly/3n6lPkN último acesso em 10 de março de 2023 ↩︎
- Nonaka. I; Takeuchi. H. Criação do conhecimento na empresa. Tradução Ana Beatriz Rodrigues e Priscilla Martins Celeste. – Rio de Janeiro. Elsevier, 1997 – 20º impressão ↩︎
- É controverso se a autoria da frase seja do estadista e filósofo britânico EdmundBurke (1729-97), ou do filósofo espanhol George Santayana (1863-1952), porém com uma outra forma: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repetí-lo” https://bit.ly/3Lze4ii – último acesso em 12 de março d 2023 ↩︎