Antonio Cabral1
Coordenador dos Cursos de Pós Graduação em
Engenharia de Alimentos
Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia
antonio.cabral@maua.br
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Pelos campos há fome
Em grandes plantações ..
Escrevo na Embanews muitos textos sobre gerenciamento do Sistema Embalagem, graças ao generoso convite do Roberto e do Ricardo Hiraishi. É um exercício desafiador e saudável buscar, em cada edição, um tema que se destaque aos olhos dos leitores e das leitoras.
A adequada gestão começa por estabelecer limites, ou como me disse o Prof. Afonso Fleury nas aulas de Metodologia da Pesquisa do Programa de Doutorado da Poli/USP, por “recortar” o universo de amostras de modo a desconsiderar as partes que fogem do foco (ou do gargalo) de um projeto ou de um processo. Aprendi com ele a expressão “foco e limite”. Após determiná-los, devem ser seguidos os seguintes passos: a) mapear o processo produtivo; b) checar os procedimentos nele adotados; c) posteriormente cronometrá-los; d) identificar seus pontos críticos e agir.
Esse raciocínio sistêmico é aplicável às cadeias produtivas de alimentos, repletas de perdas e desperdícios neste momento (2023) em que a fome grassa no mundo. Pouco falei dela nos artigos publicados, embora seja claro, para mim, que ambas (embalagem e alimentos) são inseparáveis.
Coincidência ou não, enquanto elaborava este artigo, recebi a edição de junho de 20233 da Revista Pesquisa Fapesp que tem, como matéria de capa “Para não faltar arroz e feijão: estudos que mapeiam o percurso da comida, do cultivo à mesa, para combater a fome e a insegurança alimentar”. Recomendo a leitura! Destaco a seguir os três pontos em que reconheci grande semelhança com o que escrevi em edições anteriores da embanews:
- Visão sistêmica: Enfatizado o “conceito de sistema alimentar, que surgiu para abarcar diferentes etapas do processo de produção de comida”. São “múltiplos sistemas alimentares” com diferentes graus de complexidade e é essencial administrá-los com rigor para maximizar a sua eficácia e a sua eficiência;
- Gargalos dos sistemas: O Brasil “provê comida para 800 milhões de pessoas”, mas não impede que aproximadamente 125 milhões “enfrentem algum nível de insegurança alimentar” porque tem gargalos na distribuição, que prejudicam a eficácia e encarecem o produto. Dados de 2022 mostram que “a população brasileira enfrentou insegurança alimentar grave (15,5%) ou moderada (15,2
%)”. Em síntese, “pelos campos há fome em grandes plantações”. É necessário identificar e eliminar esses gargalos com soluções específicas;
- Commodities versus produtos com valor agregado: O INCT Combate à Fome4 explica que, embora o Brasil seja “o quarto maior produtor mundial de grãos e o segundo maior exportador”, não consegue vencer o desafio interno que é “a produção de alimentos saudáveis e variados, como frutas, legumes e verduras para atender ao mercado interno”. Ou seja, é melhor vender grandes volumes de commodities, produzidas com excelência operacional exemplar, do que incentivar a diversidade, que é um maior portfólio de produtos com valor agregado.
Nesse ponto, o (a) leitor(a) crítico(a) deve estar perguntando: o que este texto tem a ver com embalagem, foco da revista? Minha resposta é: tudo a ver!
As embalagens são essenciais para a manutenção da qualidade de alimentos desde a sua colheita, extração ou abate, até o momento do consumo. Elas têm papel de
proteção na cadeia produtiva porque reduzem perdas e facilitam a distribuição até o consumidor, esteja ele bem nutrido ou com os vários graus de insegurança alimentar. É essencial que a indústria estude minuciosamente e conheça todas as características de cada produto e da sua distribuição para especificar o Sistema Embalagem de modo correto. “O conhecimento é em si mesmo um poder5” e é essencial se valer dele para, com o custo adequado, eliminar (sonho meu!) a insegurança alimentar. É tarefa para começar agora porque, “quem sabe faz a hora não espera acontecer”!
Falar de fome é falar de embalagem que é o veículo para disponibilizar alimentos. A primeira questão que deve ser respondida no desenvolvimento de um Sistema Embalagem é: o que o consumidor deseja? A resposta: comer, e rápido, porque, como disse o sociólogo Herbert José de Souza, o Betinho, falecido em 1997, “quem tem fome tem pressa6”.
Publicado na revista EMBANEWS, edição 400, julho de 2023, pág. 46
1 Diretor da Pack&Strat – Engenharia e Estratégia de Embalagem Ltda – www.packstart.com.br
2 Caminhando. Canção de Geraldo Vandré. Disponível em https://www.letras.mus.br/geraldo- vandre/46168/
3 Disponível em https://revistapesquisa.fapesp.br/leia-a-edicao-de-junho-de-2023/ publicada pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (FAPESP).
4 INCT – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia https://www.fsp.usp.br/site/noticias/mostra/39958 acesso em 02 de julho de 2023.
5 Frase atribuída a Francis Bacon. Disponível em https://www.ebiografia.com/francis_bacon/ . Último acesso em 02 de julho de 2023.
6 https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-25-anos-o-brasil-perdia-betinho-s%C3%ADmbolo-do-combate-
%C3%A0-fome/a-62751489
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